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Historias Nautilus - Naufrágio - River Gurara

RIVER GURARA, morte e vida de um navio

River GuraraEram sete da manhã do dia 26 de Fevereiro de 1989 quando entrei no veleiro que deveria preparar para uma regata no Tejo, que viria a ser cancelada por razões meteorológicas. Com efeito a previsão referia ventos com rajadas de 100 km/h e mar grosso com vagas de 5 a 6 metros. O dia estava frio, ventoso mas ensolarado. Liguei o rádio VHF de bordo para tentar saber mais notícias do estado do tempo e fui surpreendido com algumas comunicações que davam conta de um problema grave com um navio junto ao Cabo Espichel. Um outro navio Búlgaro de nome “Voyana” em viagem de Marrocos para França com fogo a bordo, 4 feridos e adornado quase 35º contrariava as ordens do Porto de Lisboa e tentava entrar a barra, o que viria a conseguir. Ao largo de Espinho um outro navio Líbio de nome “Sirt” com 30 tripulantes tinha também pedido socorro.

Se a situação destes dois últimos navios parecia estar mais controlada, o problema do Cabo Espichel estava pior com o navio muito perto da falésia e com o mar muito agreste e vento muito forte.

Resolvi arrumar tudo e partir em direcção ao Cabo Espichel para ver “in loco” o que se passava. Quando cheguei, cerca das 0900 horas, estariam no local cerca de 50 pessoas. O vento soprava muito forte e tinha alguma dificuldade em aguentar-me de pé, caminhava agachado para oferecer menos resistência ao vento. O quadro que tive oportunidade de testemunhar era terrífico. O navio já tinha batido na falésia e com a força de mar e vento tinha-se partido. A proa já tinha afundado e a popa semi-submersa era fustigada pela força de mar. Lá em baixo agarrados aos destroços podiam ver-se 4 homens que teimavam em agarrar-se à vida a todo o custo. Fiquei completamente siderado e sem palavras com o horror da cena que tinha à minha frente e por muitos anos que viva, jamais esquecerei aqueles momentos dramáticos.

As vagas passavam já por cima dos destroços e dos homens, e foi assim que de repente dos quatro, já só estavam três e depois dois.

Entretanto chega o Helicóptero da Força Aérea Portuguesa, que me disseram ser o segundo e tenta descer o recuperador. Com a proximidade da falésia e as rajadas intensas de vento não parecia ser muito fácil a operação de recolha dos náufragos. Realmente o piloto dominava a máquina e fez descer o recuperador que imagine-se, largou o cabo e ficou no navio. O cabo ficou a ondular e num gesto altruísta um dos náufragos apanhou o cabo e levou a recuperador que assim se salvou de uma morte certa e violenta. Todavia com o esticão do cabo ele bateu nos destroços tendo-se percebido que ficou magoado seriamente. Na verdade o helicóptero recolheu o seu recuperador e partiu ao que nos disseram para um hospital.

Um pouco antes um dos náufragos o penúltimo sobrevivente tentou numa manobra desesperada agarrar o cabo que balouçava à sua frente, mas falhou e foi levado pelo mar para nunca mais ser visto.

O último homem que se supõe ser o comandante, completamente exausto, foi varrido do varandim do navio pela fúria das ondas. Ainda se viu uma cabeça agarrada ao um tronco de madeira, mas foi por momentos, depois o desespero de quem assistia impotente à morte daqueles seres humanos. A natureza dá e tira com toda a facilidade e de facto não há mortes simpáticas.

O destroço da popa começou a afundar e nem o rugido violento do mar escondeu o silêncio sepulcral que se sentiu. Senti um frio intenso na espinha e fiquei imobilizado e vergado pelo tormento que acabara de assistir. Eram cerca de onze horas do dia 26 de Fevereiro de 1989, e o River Gurara tinha desaparecido, deixando 4 mortos, 15 desaparecidos (entre os quais se conta o comandante Ogundein) e 27 sobreviventes, salvos num acto de grande heroísmo, pela guarnição da fragata da marinha de guerra portuguesa Hermenegildo Capelo. Entre os sobreviventes estavam a esposa e as duas filhas do Comandante

O "River Gurara" era um cargueiro de 22 mil toneladas e 175 metros de comprimento, construído em 1980 e navegava com bandeira da Nigéria. Tinha pelo menos mais dois irmãos gémeos: o "River Maje" e o "River Oil", abatidos respectivamente em Maio e Julho de 2001.

Na sua última viagem saiu de Lagos na Nigéria e passou pelo Gana, Camarões, Costa do Marfim e deveria seguir para alguns portos ingleses com uma carga 12 mil toneladas de madeiras e cacau. Transportava 46 pessoas entre passageiros e tripulação, das quais 3 crianças e duas mulheres (uma delas a mulher do Comandante de nome Eve e duas filhas do casal)

O naufrágio foi alvo de grande polémica, por várias razões, entre as quais se apontam a avaria causadora do desastre, a decisão do navio não entrar em Lisboa ou Setúbal para reparação, a problemática burocracia que impediu um rebocador de alto-mar holandês de sair do porto de Lisboa para socorrer este navio e finalmente pela poluição e destroços e algumas embalagens com droga que deram à costa em Melides, segundo informações mais recentes.

O comandante Ogundein do River Guraara, de 34 anos e 14 de mar, segundo me confidenriver Gurara Sesimbraciou o Almirante Mota e Silva, não dominaria o inglês, tendo dessa forma criado alguma dificuldade de comunicação, o que não ajudou. Um comandante é soberano no seu navio e as opções que terá tomado poderão ser questionadas, mas serão sempre muito difíceis e só valorizáveis por quem eventualmente tenha passado por uma situação semelhante, e aqui lhe presto homenagem pela dignidade de ter ajudado primeiro a salvar a vida dos outros antes da sua.

Esta história de morte do River Gurara, foi o primeiro dia de uma outra história agora de vida que nesse momento nasceu para o mergulho em Portugal.

Passados 3 ou 4 semanas deste fatídico acidente, quando o mar acalmou, tive oportunidade de ir ao Cabo Espichel mergulhar. Ainda se viam muitos destroços a flutuar e a água tinha um cheiro pestilento e oleoso. Entrei na água no local onde tinha visto afundar a proa e que já conhecia. O fundo estava naturalmente pejado de destroços pequenos mas a secção principal… nada. Ao fim de trinta minutos cheguei à superfície com o fato brilhante da poluição do combustível, mas sem ter encontrado nenhuma parte significativa do navio. Parecia um mistério para quem viu como eu o navio afundar naquele local. Só no segundo mergulho encontrei o popa e a casa das máquinas o seu enorme hélice e o leme. O navio estava adornado, praticamente virado para baixo e repousava agora a 25 metros de profundidade. Pelo fundo uma miríade de destroços mostravam claramente a violência do naufrágio e pude constatar chapas de grossura considerável amachucadas como se fossem papel e zonas praticamente irreconhecíveis num amontoado de ferro incaracterístico. Roupas. Madeiras, cabos eléctricos, tubos e ferramentas, estavam espalhados numa área considerável. Fui encontrando alguns objectos curiosos como um casaco, um comando de televisão, uma boneca provavelmente de uma das crianças, uma faca de cozinha, um termómetro e mais tarde um fornecimento de latas de atum e garrafas de cerveja de meio litro. Talvez o que mais me tenha fascinado foi encontrar uma secção que aparentava ser uma oficina com máquinas e muitas ferramentas de grande tamanho, e ainda uns lindos machados de bombeiro.

Do casario, restam algumas chapas espalhadas pelo fundo e ainda hoje muita gente me pergunta o que foi feito da ponte de comando. Ficou completamente destruída e com os destroços espalhados pelo fundo, sendo impossível reconhecer alguma parte dessa secção do navio.

Mais tarde vim a descobrir a amarra e depois um dos ferros, a cerca de 150 metros da popa e afastado de terra, provavelmente no mesmo local onde o comandante numa atitude de desespero fundeou pela última vez numa tentativa de salvar o navio.

Talvez quatro anos depois e um pouco por sorte viria a descobrir a proa a cerca de trezentos metros da popa e um pouco mais funda a cerca de 32 metros.

Ao longo destes anos e após muitos mergulhos naquele naufrágio, tive o privilégio de assistir ao nascimento e evolução de um recife cada vez com mais vida. Anhomenagem river gurarao após ano o ciclo da natureza vai destruindo cada vez mais o navio mas a vida ganha cada vez mais consistência, tornando aquele local idílico para a maioria dos mergulhadores portugueses que ali encontram um dos mais belos naufrágios da costa portuguesa.

20 anos depois era justíssima a homenagem dos mergulhadores que por ali passam ao River Gurara e aqueles que ali deixaram as suas vidas. Foi com naturalidade que a ideia do Paulo Guerreiro se começou a desenhar. Num esforço conjunto da Tridacna, e da Nautilus-Sub, e ainda com o apoio da Câmara Municipal de Sesimbra, do Peixe Voador, da Amora Sub, entre muitos outros, foi colocado no casco do naufrago uma placa com a homenagem dos mergulhadores que ali se deslocaram ao longo destas duas décadas.

José Tourais

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